Sistema previdenciário atual é insustentável, diz economista Dyogo Oliveira

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Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

São Paulo – O ritmo de envelhecimento da população brasileira na última década, que tem se acelerado acima da média mundial, torna a janela de transição para reformas mais consistentes do sistema previdenciário do Brasil cada vez menor. É o que observa o economista Dyogo Oliveira, que teve diversas passagens pelo governo e atualmente é presidente da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg). “A realidade demográfica tem tornado o sistema previdenciário atual insustentável e a janela de transição está se fechando”, disse em entrevista exclusiva para o VIVA.

O economista defende uma reforma que mude o modelo previdenciário, passando de um sistema de repartição, que é baseado na solidariedade intergeracional, para um híbrido, onde a população acumularia recursos para a aposentadoria, complementando uma previdência pública mais limitada.

A tese básica do sistema atual já foi quebrada e precisamos buscar um novo equilíbrio”, diz.

Com mestrado em Ciências Econômicas, Oliveira foi ministro do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão de Michel Temer, entre 2016 e 2018, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre abril e dezembro de 2018, além de secretário-adjunto de Política Econômica entre 2008 a 2011, e secretário-executivo adjunto, no Ministério da Fazenda entre 2011–2013. Desde abril de 2022, Oliveira atua como diretor-presidente da CNseg.

O ex-ministro sugere que o Brasil tem uma janela de 4 a 10 anos para colocar em curso uma transição gradual, evitando medidas drásticas como as adotadas por países como Grécia e Itália, que reduziram benefícios pela metade e aumentaram a idade de aposentadoria para 67-68 anos.

Sobre as eleições deste ano, Oliveira acredita que o tema Previdência não será central nas campanhas, pois é politicamente desgastante. No entanto, o presidente eleito, independentemente de quem seja, terá que enfrentar essa realidade e usar o primeiro ano de governo para implementar reformas, aproveitando o maior capital político.

Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista:

VIVA: O envelhecimento da população brasileira já é um fato demográfico. Na sua avaliação, qual é o principal risco fiscal e social para o País de não adaptar o sistema previdenciário a esse novo perfil?

Dyogo Oliveira: Esse é um tema que a sociedade brasileira vem debatendo há muitos anos. Seguimos, como a maioria, o modelo que começou na Alemanha no século XVIII, baseado em uma sociedade que tinha um padrão demográfico onde as famílias eram maiores. E a realidade da sociedade mudou. O meu avô teve nove filhos, meu pai teve quatro e eu tenho dois. Isso provoca mudanças na natureza do sistema previdenciário.

A tese que há por trás do regime de repartição que temos hoje é a de que os filhos e os netos vão pagar as aposentadorias dos pais. Em 2050, a relação de contribuinte por beneficiário atingirá a insustentável marca de um para um.

Em resumo, o regime está desenhado de uma maneira que é incompatível com as mudanças demográficas que temos. Em 1980, o Brasil tinha 120 milhões de habitantes e 8 milhões de beneficiários do INSS. Hoje, somos mais ou menos 220 milhões de habitantes e 40 milhões de beneficiários no INSS. Em 2025, o governo federal registrou um déficit de R$ 450 bilhões. Gastamos com a questão das aposentadorias três vezes o que se gasta com educação. Essa sociedade não tem futuro, não vai se desenvolver, não vai crescer, não vai gerar uma nova geração de talentos capazes de gerar tecnologia, de acompanhar o desenvolvimento do mundo e está fadada ao fracasso. 

Esse é o ponto que mais me incomoda em termos de discussão sobre Previdência. A média dos países da União Europeia tem um gasto de 11,5% do PIB com aposentadoria. No Brasil essa relação está em 14%. Nas reformas anteriores foram feitos ajustes paramétricos, ou seja, mexemos nas regras do jogo. A próxima reforma precisa mexer no modelo previdenciário.

Qual o modelo ideal de sistema previdenciário?

Esse modelo não precisa ser único. Podemos ter um modelo misto que garanta um certo nível de aposentadoria pública e a partir desse ponto você tem um acúmulo de recursos ao longo da vida. Ainda temos a chance de fazer isso de maneira gradual. O Brasil ainda tem uma janela talvez de 4 a 10 anos para tentar fazer uma transição gradual. Ou enfrentaremos problemas previdenciários como a Grécia, a Itália, Portugal, Espanha. Todos esses países tiveram uma crise severa previdenciária. 

Chamo a atenção aqui para a importância e necessidade de começarmos a ter uma discussão mais profunda e técnica, não só sobre os parâmetros, mas sim sobre o modelo de aposentadoria de previdência que o Brasil tem hoje. Vários países já fizeram essa migração, outros países tem regimes mistos.

Em ano de eleições, acredita que algum candidato tocará nesse tema em campanha? 

Vou te dizer uma coisa um pouco paradoxal. Eu até acho que o candidato que realmente pensa em fazer isso não deveria tratar do assunto durante a campanha, porque certamente é um tema que atrapalha a eleição de qualquer candidato. Entretanto, é preciso reconhecer o problema. Alguns candidatos têm tido pelo menos manifestações no sentido de reconhecer, mas eu não acho que seja um tema de campanha.

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